Tradição quilombola e afrofuturismo inspiram novos projetos do cinema negro sergipano
Desenvolvidos no EGBÉ LAB, os filmes Samba de Celebração e Abya Yala: Raízes do Futuro passaram por consultorias de roteiro e direção com Xenia Rivery e Everlane Moraes
Um telefilme inspirado na tradição quilombola da meladinha, na comunidade da Mussuca, em Laranjeiras (SE), e um longa-metragem afrofuturista que articula ancestralidade, memória e preservação ambiental estão entre os projetos em desenvolvimento no EGBÉ LAB – Fortalecendo o Cinema Negro Sergipano. Ao longo do mês de maio, as cineastas Luciana Oliveira e Carolen Meneses participaram de consultorias de roteiro e direção voltadas ao aprofundamento narrativo e ao desenvolvimento da linguagem cinematográfica de suas obras.
Realizado pelo Instituto EGBÉ – Cultura e Educação Afro-brasileira, o laboratório reuniu duas profissionais com atuação internacional. A roteirista cubana Xenia Rivery, ex-coordenadora da Cátedra de Roteiro da Escuela Internacional de Cine y Televisión – EICTV, conduziu as consultorias de roteiro. Já a cineasta Everlane Moraes, cuja trajetória inclui exibições em festivais como Sundance e Rotterdam, acompanhou os projetos nos processos de direção e construção de linguagem cinematográfica.
Dirigido por Luciana Oliveira, Samba de Celebração tem como ponto de partida a tradição da meladinha, celebração realizada após o nascimento de uma criança na comunidade quilombola da Mussuca. A narrativa acompanha Alice, uma mulher grávida que precisa decidir se realizará ou não a festa tradicional de seu quilombo, articulando temas como maternidade, pertencimento, memória e continuidade cultural.
A cineasta conta que o interesse pelo tema surgiu a partir de suas vivências familiares e das transformações observadas na própria tradição ao longo do tempo. A proposta do filme busca registrar memórias e refletir sobre diferentes formas de celebrar o nascimento dentro da comunidade quilombola da Mussuca. “Foi fundamental esses momentos de consultorias. Tive a oportunidade de voltar com profundidade às questões que permeiam ainda o roteiro, o que ainda precisa ser maturado e o tempo necessário. Tanto para mim, quanto para meus roteiristas e produtores executivos deste filme, foi um processo intenso e bonito, de afeto e foco no trabalho”, afirma.
Já Abya Yala: Raízes do Futuro, dirigido por Carolen Meneses, acompanha uma cidadã abya-yalense do ano 3000 que viaja no tempo para resgatar a semente da única árvore luminosa capaz de regenerar a flora de seu tempo. Ao chegar em 2028, ela precisa convencer uma de suas ancestrais de que o futuro da humanidade depende daquela escolha.
Em desenvolvimento, o projeto utiliza a ficção especulativa para refletir sobre crise climática, território, ancestralidade e futuros negros construídos a partir do Nordeste brasileiro. Durante o EGBÉ LAB, a diretora aprofundou aspectos estruturais do roteiro e o percurso dramático das personagens. “Durante as consultorias do EGBÉ LAB, avançamos no amadurecimento dos caminhos estruturais do roteiro, mas, principalmente, aprofundamos a reflexão sobre a jornada das personagens. Entrei no processo de forma muito aberta, confiando no trabalho das consultorias e na seriedade dos espaços propostos pelo EGBÉ”, destaca Carolen.
O processo terá continuidade em agosto, com uma atividade aberta promovida pelo Instituto EGBÉ, na qual as diretoras irão apresentar ao público parte dos aprendizados, reflexões e caminhos desenvolvidos durante o laboratório.
Embora partam de universos distintos, Samba de Celebração e Abya Yala: Raízes do Futuro compartilham o interesse por memória, ancestralidade e transformação social. Ao reunir uma narrativa inspirada em uma tradição quilombola e uma ficção afrofuturista voltada para questões ambientais, os projetos revelam diferentes caminhos do cinema negro produzido em Sergipe e apontam para a diversidade temática e estética das obras atualmente desenvolvidas por realizadoras negras no estado.