Emoções podem influir na forma como migrantes usam diferentes idiomas
Tese de doutorado desenvolvida entre a Unit e a UMass Boston investigou a relação emocional de brasileiros migrantes com diferentes idiomas; estudo abre novas perspectivas para a educação e a inclusão de migrantes
Como as emoções e as vivências de quem sai de um país para viver em outro podem influenciar na forma como se aprende e utiliza outros idiomas? Esta questão foi tema de uma tese de doutorado produzida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPED), da Universidade Tiradentes (Unit).
O estudo, de autoria da professora e pesquisadora Manoela Barbosa Pinto, é a primeira tese escrita totalmente em língua inglesa no programa da Unit, tendo parte de suas pesquisas realizadas na Universidade de Massachusetts Boston (UMass Boston), em Boston (Estados Unidos), em regime de doutorado-sanduíche.
A tese é um estudo comparado em cima dos perfis de cinco brasileiros que migraram para os estados norte-americanos da Flórida e de Massachusetts, sendo dois que permanecem morando por lá até hoje e outros três que voltaram para Sergipe, em períodos na década de 2010.
Além do português como idioma nativo, eles tiveram maior contato com o inglês e com o espanhol, idioma falado por muitos latinos que vivem nos EUA.
Através de entrevistas e acompanhamentos, Manoela investigou como os imigrantes, sejam eles temporários ou definitivos, se relacionam emocionalmente com um segundo idioma e como essa relação influencia em outras áreas da vida destas pessoas.
“Como é que eles se relacionavam emocionalmente com as línguas? Eles passaram a ficar mais tímidos quando vão para os Estados Unidos? Conseguem falar o inglês e o português normalmente? Ou para falar o inglês eles rejeitam o português?
Como é que acontece essa troca emocional entre as línguas? E como é que eles se expressam criticamente? Como é que eles dão suas opiniões sobre determinados assuntos?
Eles dão em português, dão em inglês ou misturam as línguas? Então, foi esse o processo”, diz a doutoranda, sobre os questionamentos que levantou.
Uma das principais conclusões do estudo é de que existe conexão entre os idiomas não-nativos e as experiências pessoais vividas por cada migrante, sejam elas positivas ou negativas.
“A emoção é fundamental para o desenvolvimento linguístico e para a escolha das línguas que você vai usar. A sua relação emocional com essas línguas e as experiências que você teve ao longo da sua vida com elas são essenciais para a escolha de qual língua você vai usar e se você vai translinguar ou não.
E o pensamento crítico não é associado à translinguagem, ou seja, quando os participantes querem dar opinião ou expressar um pensamento crítico, eles escolhem o português ou o inglês”, explica Manoela.
Esta conclusão explica um comportamento detectado entre alguns participantes da pesquisa: não usar o idioma que esteja associado a alguma experiência negativa, dando preferência a outro idioma associado a vivências positivas.
Em uma das etapas da tese, os participantes foram convidados a fazer uma representação da conexão emocional que tinham com os idiomas, através de pinturas. “Eu fiz um desenho no qual eles tinham que colocar uma representação das línguas deles numa silhueta humana e todos eles pintaram a língua materna no coração.
Isso quer dizer que eles amam e se sentem confiantes mais na língua materna, que no caso é o português. É onde eles se expressam melhor, eles se sentem mais à vontade nas emoções. Está associado muito à questão ideológica e emocional deles”, descreve a pesquisadora.
Tal conexão emocional está mais presente nos codinomes adotados pelos entrevistados durante a pesquisa, para proteger suas identidades: Alvorada, Bonds, Solar, All e Esperança.
Cada codinome foi escolhido de acordo com as características que cada pessoa apresentou ao longo das entrevistas para a pesquisa. “A Esperança, por exemplo, ressignificou todas as emoções negativas que ela teve.
Ela não via essas experiências com um olhar ruim, achava que aquilo, em vez de diminuí-la, a engrandeceu”, citou Manoela.
Suprindo necessidades
A tese, orientada pela professora Simone Silveira Amorim, do PPED/Unit, e co-orientada pela greco-americana Panayota Gounari, da UMass Boston, foi defendida e aprovada com recomendação para publicação em inglês e português, o que deverá ser feito em forma de artigos científicos em revistas especializadas ou em capítulos de livros acadêmicos.
Além delas, a banca examinadora foi composta por professores do PPED/Unit, da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e de outras duas universidades norte-americanas.
Para a orientadora, a tese tem potencial para alcançar diversas outras universidades e instituições de pesquisa voltados às ciências humanas no exterior, sobretudo as que lidam com questões relacionadas à imigração.
“Especialmente, pensando nessa ideia de que existem pessoas morando em diversos países do mundo que não os seus de origem. Todas essas pessoas são imigrantes, elas se movem e têm necessidades que precisam ser supridas, também na área da educação.
O tema é importantíssimo para qualquer ser humano em qualquer lugar do mundo que tenha a oportunidade de se mover do seu país de origem para um outro país.
E essa pesquisa dá explicações e aponta direcionamentos para ajudar essas pessoas, especialmente crianças quando vão para a escola em um outro país”, destaca Simone.
A orientadora da tese considera ainda que a apresentação da primeira tese internacional do PPED representa um marco importante, que fortalece e consolida um dos principais pilares da Unit: a internacionalização. “O que a gente escreve aqui e agora, quando é colocado no repositório da universidade, vai para o mundo.
E se estiver numa língua em que a comunicação é fortemente realizada, a gente tem um alcance muito maior.
Se a gente for pensar que nos países da Europa, por exemplo, grande parte das pessoas estudam, leem e se comunicam em inglês, o alcance de uma tese escrita em inglês realmente aumenta. A gente deixa de falar somente para nós e passa a falar para o mundo”, afirma ela.
Manoela Barbosa acredita que o principal impacto da tese é colaborar com um melhor acompanhamento profissional e psicológico de estudantes e trabalhadores internacionais, sobretudo imigrantes, que tenham dificuldades para se adaptarem plenamente aos países de destino. “A gente vai enxergar melhor as pessoas como indivíduos e não como um coletivo.
O problema dos processos avaliativos que nós temos é que eles enxergam o indivíduo em um coletivo no qual todos devem se encaixar, quando na verdade eles são diferentes. A forma como eu falo não é a mesma forma que você fala.
A sua relação com o português não é a mesma que a minha. Então, como é que a gente vai se expressar da mesma forma? É isso que eu quero que as pessoas entendam com essa tese”, afirma.
De acordo com Simone Amorim, outras pesquisas realizadas no âmbito do PPED, tanto em nível de mestrado quanto de doutorado, inclusive com outro idioma, estão sendo produzidas com a participação de pesquisadores e professores de outras universidades do exterior, em países como Estados Unidos, Espanha, Portugal e Moçambique.
“A gente tem realmente essa intenção de ampliar cada vez mais o nosso acesso e a nossa colaboração com outros colegas de outras instituições do mundo, e a tese bilingue é um esforço nesse sentido”, considera.