Parceria entre Unit e Valladolid aproxima pesquisas de Arquitetura da realidade sergipana
Estudantes espanhóis participaram de atividades em Sergipe e tiveram contato com comunidades, territórios e soluções construtivas relacionadas aos temas de suas pesquisas
O crescimento das cidades, frequentemente impulsionado pela valorização imobiliária e pela ocupação crescente dos territórios, apresenta à arquitetura questões que ultrapassam a criação de novos espaços. Como promover esse crescimento sem desconsiderar as comunidades, as formas de produção e as particularidades de cada lugar? E, diante das temperaturas cada vez mais elevadas, de que maneira desenvolver ambientes confortáveis sem aumentar a dependência de sistemas artificiais de climatização?
Foi a partir de questões como essas que Luis Herrero e Maria Bazaco, estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Universidad de Valladolid (UVa), na Espanha, desenvolveram suas pesquisas. Durante duas semanas, os estudantes participaram de atividades na Universidade Tiradentes (Unit) e conheceram diferentes realidades do território sergipano, experiências que contribuíram diretamente para os estudos que realizam. A iniciativa integra o Programa Laboratório Social, parceria mantida entre a UVa e a Unit desde 2023, com envolvimento de professores das duas instituições e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) como base para a construção de projetos de impacto social.
Enquanto Luis se dedica a compreender as relações entre arquitetura, produção e os territórios situados nas proximidades dos centros urbanos, Maria investiga alternativas arquitetônicas que possam responder às condições climáticas sem depender exclusivamente de mecanismos artificiais de climatização. Embora sigam caminhos distintos, as duas pesquisas têm em comum a busca por novas formas de pensar a relação entre arquitetura, território e os desafios que se apresentam para o futuro.
Arquitetura produtiva
Com o título “Arquitetura, Produção e Hinterlândia”, a pesquisa de Luis analisa projetos de arquitetura produtiva implantados em áreas periurbanas, espaços que fazem a transição entre os ambientes urbanos e rurais. “A proposta é investigar como a arquitetura pode contribuir para uma nova abordagem ecológica desses territórios, considerando também as formas de produção e as relações estabelecidas pelas comunidades que vivem nesses espaços”, explica Luis.
A passagem por Aracaju possibilitou que o estudante estabelecesse comparações entre as áreas periurbanas brasileiras e os territórios que já fazem parte de sua pesquisa. A visita a comunidades quilombolas sergipanas também incorporou ao estudo uma realidade que não estava presente em sua experiência na Espanha, principalmente no que diz respeito à relação entre território, produção e organização coletiva. “Isso me fez compreender de outra maneira como funcionam comunidades que produzem aquilo que consomem, possuem redes locais de solidariedade e como a arquitetura também contribui para dar forma a essa realidade”, elenca.
A professora de Arquitetura da Unit Rosany Albuquerque acompanhou parte das atividades e ressalta que a vivência possibilitou perceber elementos que dificilmente seriam apreendidos somente por meio de estudos teóricos. Durante uma visita à comunidade quilombola Muçuca, por exemplo, foram discutidas as relações estabelecidas pelo povoado com centros urbanos próximos, como Laranjeiras e Pedra Branca, além da maneira como a comunidade preserva sua identidade ao mesmo tempo em que mantém vínculos com outras localidades. “Consegui enxergar determinados aspectos que não perceberia apenas pela conversa, mas que ficaram muito mais evidentes a partir da experiência e das discussões que ele teve com as pessoas da comunidade”, relata Rosany.
O contato com essas comunidades também trouxe à discussão aspectos históricos que ainda repercutem na configuração desses territórios. Na avaliação de Rosany, conhecer a realidade quilombola evidenciou a importância de compreender a abolição da escravatura como parte de um processo cujas desigualdades não foram encerradas naquele momento e continuam produzindo efeitos. “Precisamos continuar estudando esse processo. As dificuldades ainda existem e a luta continua. Também foi muito bonito observar a relação dessas comunidades com a natureza. Eles retiram da terra aquilo que consomem e transformam esses recursos de uma maneira ancestral”, afirma.
Arquitetura e clima
A pesquisa de Maria Bazaco se concentra em uma questão igualmente presente nos debates contemporâneos: desenvolver espaços que mantenham condições de conforto diante da elevação das temperaturas sem ter os aparelhos de ar-condicionado como única alternativa. O estudo utiliza o trabalho do arquiteto Richard Neutra e os chamados artefatos climáticos como referências para refletir sobre uma arquitetura que consiga responder às características ambientais específicas de cada local.
“Com o aquecimento global, as temperaturas vão aumentando e, dentro de muitos anos, ou talvez não tantos, podemos estar fazendo uma arquitetura que se torne inviável para as condições climáticas futuras. Não podemos depender apenas de aparelhos de ar-condicionado e de sistemas de climatização artificial para sobreviver”, explica Maria.
A experiência no Brasil, nesse sentido, acrescentou elementos diretamente ligados à investigação. A partir das conversas com professores da Unit, Maria conheceu recursos empregados pela arquitetura brasileira para enfrentar o calor, entre eles a ventilação cruzada e os brises, estruturas instaladas nas fachadas para reduzir a incidência direta da luz solar e do calor nos ambientes. Ela também teve contato com referências de arquitetos que desenvolveram propostas relacionadas ao conforto térmico e à interação entre as edificações e o clima.
As características de Aracaju também passaram a integrar as observações da estudante. Vinda de uma realidade climática distinta, Maria pôde perceber como os edifícios locais respondem às temperaturas e às condições próprias de uma cidade tropical. A experiência ainda estimulou uma reflexão sobre a possibilidade de que a elevação das temperaturas torne, no futuro, algumas das soluções atualmente empregadas menos eficientes.
Para a professora Rosany, a pesquisa de Maria também estabelece uma relação importante com a realidade sergipana. Segundo ela, o contato com o estudo abriu novas possibilidades de discussão entre professores e estudantes da Unit, principalmente diante da perspectiva de um futuro marcado por temperaturas ainda mais elevadas.
“Como eles têm estações do ano mais definidas, já trabalham, em suas habitações, possibilidades de reduzir naturalmente a temperatura dos ambientes. Ela comentou, por exemplo, que eles estão enfrentando temperaturas de até 45°C no verão. Ela veio para cá justamente porque o Brasil é um país tropical e possui um clima quente e se surpreendeu quando expliquei que, em Aracaju, temos temperaturas mínimas em torno de 22 °C ou 23 °C e máximas geralmente próximas dos 30 °C”, observa Rosany.
O contato com soluções desenvolvidas no Brasil também contribuiu para ampliar as referências utilizadas por Maria. Ao longo da experiência, a estudante conheceu exemplos da arquitetura vernacular brasileira e projetos de profissionais como Severiano Porto e João da Gama Filgueiras Lima, conhecido como Lelé, que desenvolveram propostas relacionadas ao clima e às estratégias de conforto ambiental.
Troca de conhecimentos
Ao longo das duas semanas de atividades, Luis e Maria participaram de encontros com professores do Núcleo Docente Estruturante (NDE), acompanharam aulas de duas disciplinas do curso de Arquitetura e visitaram comunidades. Os estudantes também estiveram em atividades e palestras voltadas à construção e ao desenvolvimento de projetos que valorizam aspectos como identidade, cultura e patrimônio.
Embora tenham como ponto de partida questões distintas, as pesquisas de Luis e Maria encontraram no território sergipano novas possibilidades para refletir sobre desafios atuais da arquitetura: ocupar e produzir nos espaços urbanos de forma mais sustentável, preservar modos de vida tradicionais e pensar soluções arquitetônicas capazes de responder a um planeta em processo de aquecimento.