EDUCAÇÃO - TOPO
Aracaju (SE), 13 de junho de 2026
POR: Gicélia Mendes da Silva, Pró-reitora de equidade racial e ações afirmativas-UFS
Fonte: Gicélia Mendes da Silva, Pró-reitora de equidade racial e ações afirmativas-UFS
Em: 12/06/2026 às 14:31
Pub.: 12 de junho de 2026

A Institucionalização da Luta: Desafios na Pró-Reitoria de Equidade Racial e Ações Afirmativas na UFS :: Por Gicélia Mendes da Silva

Gicélia Mendes da Silva, Pró-reitora de equidade racial e ações afirmativas-UFS*

Gicélia Mendes da Silva, Pró-reitora de equidade racial e ações afirmativas-UFS - Foto: Assessoria

As políticas de enfrentamento ao racismo no Brasil possuem raízes históricas profundas, estruturadas em movimentos de resistência que se estendem por décadas. A promulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, não se traduziu em uma emancipação efetiva da população negra. Pelo contrário, o período pós-abolição foi marcado pelo abandono sistemático dos ex-escravizados por parte do poder público e da sociedade civil, perpetuando um ciclo de vulnerabilidade socioeconômica crônica.

A despeito dessa violência estrutural imposta pelo Estado e pelas elites dominantes, a população negra recusou a subordinação passiva, recorrendo a estratégias de insurgência e reafirmação identitária, incansavelmente. Contudo, a eficácia desse sistema e de seus desdobramentos reside no fato de que a dominação não se restringiu à dimensão física; operou-se, de forma qualificada, uma violência psicológica e cultural que visava à fragmentação dos laços de solidariedade. As táticas coloniais de isolamento e enfraquecimento comunitário e familiar explicam a dificuldade de articulação de uma reação coletiva massiva, mesmo em um cenário em que a população negra, historicamente minorizada, constitui a maioria demográfica do país. Foram séculos de promoção de invisibilização, séculos de promoção de subordinação. Vencer esses obstáculos estruturais tem sido a nossa luta até hoje.

Viver em uma sociedade estruturalmente racista impõe o desafio constante de desmistificar narrativas consolidadas. No Brasil, a ideia de uma "democracia racial" não passa de uma falácia que, historicamente, serviu para camuflar as profundas desigualdades que moldam nossas relações sociais e institucionais. Diante desse cenário de exclusão, as universidades públicas assumem papéis político, pedagógico e social centrais. Elas deixam de ser meras espectadoras para se tornarem agentes ativos na desconstrução desse status quo, utilizando as ações afirmativas como ferramentas legítimas de correção histórica.

A recente criação da Pró-Reitoria de Equidade Racial e Ações Afirmativas (Proera) na Universidade Federal de Sergipe (UFS) não é um evento isolado ou uma concessão burocrática; ela é o resultado direto de décadas de tensionamento e mobilização social, alimentados pelos movimentos de luta e engajamento crítico fora e dentro dos campi da UFS. O protagonismo dos coletivos de estudantes negros, indígenas, quilombolas, LGBT+, a articulação política do Diretório Central dos Estudantes (DCE), o apoio histórico dos sindicatos de servidores (SINTUFS) e de professores (ADUFS) e do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) foram fundamentais. Esses grupos pautaram debates, denunciaram o racismo institucional e exigiram que a universidade fizesse frente, de maneira institucional, a esse debate. A Pró-Reitoria nasce, portanto, na gestão do Prof. André Maurício e da Profa. Silvana Bretas, em 1º de dezembro de 2025, sobre os ombros dessa luta coletiva, demonstrando o compromisso da atual gestão com as lutas pela equidade, em todos os âmbitos da UFS. A criação de uma pró-reitoria evidencia esse compromisso.

A Proera, já no início de 2026, traz um marco significativo para a sociedade sergipana ao auxiliar na operacionalização do primeiro edital de cotas voltado para pessoas trans, que ofertou mais de 100 vagas para diversos cursos em todos os campi da instituição. Dessas vagas, menos de 50% foram ocupadas. Essa primeira experiência acendeu um alerta para duas frentes de trabalho que exigem atuação urgente antes do próximo edital: 1) é fundamental a interiorização da comunicação, para que mais pessoas sejam alcançadas; 2) é preciso criar redes de incentivo para que a população trans realize o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Muitas dessas pessoas ainda vivem à margem do sistema educacional sem sequer tomar conhecimento de que o espaço universitário é um direito e está à espera delas.

Atualmente, a Pró-Reitoria conta com uma equipe enxuta de cinco pessoas. Apesar do contingente reduzido, o grupo destaca-se pelo compromisso com as causas sob sua responsabilidade. Para além desse engajamento, para que esse trabalho ganhe escala e profundidade em todas as instâncias da UFS, faz-se imperativo o fortalecimento da luta política por recursos orçamentários. Mais verbas significam a sustentabilidade e a expansão de políticas que alcançam maior número de estudantes, ampliando a permanência com qualidade.

Além de investir na melhoria do atendimento de qualidade ao público-alvo, a Pró-Reitoria atua na fiscalização dos processos de ingresso. Exemplos práticos e essenciais dessa atuação são as bancas de heteroidentificação e de avaliação de ações afirmativas para pessoas trans. Longe de serem meras etapas burocráticas, essas bancas constituem um mecanismo de controle social indispensável para combater fraudes e assegurar que as vagas reservadas alcancem, de fato, as pessoas de direito protegidas pela lei.

Entendemos que o sucesso da reparação histórica não depende exclusivamente de portarias ou de equipes institucionais; demanda o engajamento e a aproximação de toda a comunidade acadêmica e civil, englobando tanto os grupos minorizados quanto os seus aliados. A desconstrução de uma estrutura excludente exige que sejamos, todas e todos, antirracistas em cada atitude cotidiana. Essa postura deve se manifestar de forma coerente em nossos discursos públicos

*Gicélia Mendes da Silva é licenciada, mestre e doutora em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Professora titular do curso de Licenciatura em Geografia na mesma instituição, atua como docente nos programas de mestrado e doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA/UFS). Realizou estágio pós-doutoral na Universidade de Brasília (UnB), integra os grupos de pesquisa GEOPLAN/UFS, GPFIMA/UFS e é vice-líder do Iyá N'lá – Grupo Interdisciplinar de Estudos Coloniais, Pós-Desenvolvimento e Ecologias Ancestrais. Atualmente, exerce o cargo de Pró-Reitora de Equidade Racial e Ações Afirmativas da UFS.

WhatsApp

Entre e receba as notícias do dia

Matérias em destaque


Notícias Indicadas

Click Sergipe - O mundo num só Click

Apresentação