Rato de esgoto :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
Segundo Suetônio, em “A Vida dos Doze Césares”, Tito, filho do imperador Vespasiano, aquele que destruiu Jerusalém, no ano 70, promovendo a diáspora dos judeus, e que mais tarde substituiria o pai, como imperador, e sendo sucedido pelo irmão Domiciano, que promoveu uma terrível perseguição aos cristãos, teria ele, Tito, importunado o pai por causa da cobrança de tributo para o uso dos urinóis espalhados pela cidade eterna. Ao ser confrontado pelo filho, o imperador tomou de algumas moedas, cheirou-as e disse: “Pecunia non olet”. Pois sim. Dinheiro não tem cheiro.
Nem tudo se conforma como uns e outros pensam e querem. Dinheiro não tem cheiro? Não digam isso a Rato de Esgoto, filho de Antônio de Faustino, da finada Vevéia. Rato de Esgoto era o apelido de Manoel Paulo de Souza Brito, que, na juventude, ganhava a vida a esgotar fossas, quando não havia sistema de coleta de esgotos domiciliares na cidade. Nem sei se já o tem. Pois para ele, dinheiro tinha cheiro, sim. E como tinha! Dizendo melhor, tinha cheiro para outras pessoas, que viam nele o possuidor de dinheiro com mau cheiro. Despeitadas. Aliás, esse tipinho de gente sórdida nunca falta por aí.
O fato foi que Rato de Esgoto deu de arrastar asas para o lado de Constância, filha de Mamede Peixoto, proprietário da Farmácia Boa Saúde, situada na Praça do Comércio de Águas Belas, cidade em franco crescimento com a chegada da energia elétrica de Paulo Afonso. Ao saber do arrastar de asas do fulano, dona Margarida subiu nos tamancos. Quem? Rato de Esgoto, de corpo e alma fedidos pelo cocô de todo mundo, casar com a sua filha, um botão de rosa desabrochando para a vida? “Não, minha amiga, com minha filha, jamais. Ele que procure alguém do igual lá dele. A minha Constância não chegará para o bico sujo dele, não. Ah, não”!
Rato de Esgoto, ou seja, Manoel Paulo de Souza Brito, era um rapaz bem-apessoado, que não trabalhava apenas na limpeza de fossas, serviço, que, nos últimos dois anos, ele terceirizava, mas tinha também outros afazeres: era dono de uma pequena casa de implementos agrícolas e emprestava um dinheirinho a juros, a quem fosse de sua confiança. Tinha, pois, futuro. Todavia, a pecha de limpador de fossas, estava impregnada por inteiro em seu ser. Como era pavorosa a discriminação!
Constância, de seu lado, não se esquivava do arrastar de asas do rapaz. O pai, Mamede Peixoto, parecia não tomar conhecimento do zum-zum-zum. Vivia ocupado com frascos de remédios, caixas de comprimidos e ampolas de injeções. Era, a bem dizer, farmacêutico e médico de ocasião.
Naquele tempo, cabia ao pai de um rapaz enamorado consultar o pai da moça pretendida sobre a possibilidade de o filho, com todo o respeito, frequentar a casa da família da moça, com pretensão de futuro casamento. Antônio de Faustino, pai de Manoel Paulo, dirigiu-se, com o filho, à casa de Mamede Peixoto, à boquinha da noite de uma sexta-feira. Foram recebidos, à porta, pela empregada da casa, Maria Geni, “Boa noite. Eu quero dar uma palavrinha com ‘seu’ Mamede. Diga que é Antônio de Faustino. Ele me conhece”. Maria Geni arrastou-se pelo longo corredor da casa até a copa, onde o jantar estava sendo servido. Pouco demorou para retornar. “O patrão mandou dizer que vosmicês podem aguardar aqui”, disse, mostrando as cadeiras de alto espaldar. Acomodaram-se, enquanto Maria Geni arrastou-se, de novo, pelo longo corredor. Foi um demorado chá de cadeira. Cerca de duas horas depois, eis Mamede Peixoto aproximando-se pelo longo corredor.
“Pois não! O que os senhores desejam”? Voz dura, seca, pouco amistosa. Mas, Antônio de Faustino, acostumado a comboiar tropas de burros pelo sertão e a lidar com todo tipo de gente, não se fez de rogado: “Obrigado por nos receber, ‘seu’ Mamede, apesar da demora. Vou direto ao ponto. Este meu filho, que o senhor conhece, a quem, inclusive, deve dinheiro por empréstimo, tem gosto de namorar a sua filha Constância, se for do seu consentimento”. Mamede Peixoto engoliu um seco. Gritou pela mulher. E lá veio ela, pelo longo corredor, as ancas largas quase derrubando um jarro de flores. Ao se inteirar da conversa, vociferou: “Se Constância namorar com este rapaz, eu me mato”.
Nada feito. Porém, três meses depois, Rato de Esgoto, credor do pai de Constância, raptou-a. O rapto foi o sucesso da cidade por semanas a fio. Não tão grave e estupendo sucesso quanto o rapto de Helena, a mulher de Menelau, raptada por Páris, príncipe de Tebas.
Ah, segundo consta, Manoel Paulo e Constância foram muito felizes! Cinco filhos e doze netos. A mãe de Constância não se matou, nem morreu de desgosto. Embalou netos e bisnetos.