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Aracaju (SE), 17 de julho de 2026
POR: Gabriel Damásio
Fonte: Asscom Unit, com informações da Agência Brasil
Em: 17/07/2026 às 11:22
Pub.: 17 de julho de 2026

Pobreza menstrual evidencia desigualdades que afetam saúde e permanência escolar

Pesquisa aponta que sintomas de cólicas menstruais, que podem até afastar meninas e mulheres de suas atividades, podem ser agravados pela falta de acesso e informações adequadas por problemas decorrentes de fatores sociais e raciais

Mesmo após avanços legislativos pontuais sobre distribuição gratuita de absorventes, a implementação prática ainda é desigual, agravando a situação de meninas e mulheres mais pobres - Foto: Elias Costa/Unicef via Agência Senado

A  chamada “pobreza menstrual”, que caracteriza a falta de acesso de meninas e mulheres a produtos de higiene, saneamento básico e educação sobre o ciclo menstrual, continua presente na realidade de grande parte da população brasileira. 

Uma pesquisa recente dos institutos Alana e Equidade.info, que entrevistaram cerca de 3 mil estudantes, professoras e gestoras escolares em todas as regiões do Brasil, apontou que 57,7% das alunas relatam ter cólicas fortes e moderadas que atrapalham sua rotina escolar e exigem uso de medicação. 

E que 37,1% delas faltam às aulas mensalmente por dores menstruais. Outras entrevistadas relataram sintomas como cansaço, dores no corpo, na cabeça e na barriga, vergonha, medo de vazamento e falta de banheiro ou produtos de higiene. 

O estudo chama a atenção para um recorte racial do problema: as alunas negras perdem até 1,5 vez mais dias de aula (dois a cinco dias por mês) que alunas brancas: 14,5% das alunas negras faltam de dois a cinco dias/mês por motivos menstruais. 

Entre as alunas brancas, o índice de faltas cai para 9,6%. Só que o relato dessas dores é mais verbalizado pelas estudantes brancas, das quais 37,5% descrevem suas cólicas como fortes, contra 25,9% das meninas e adolescentes negras. 

Ao mesmo tempo, 16% das meninas negras dizem não sentir cólicas menstruais, contra 8,5% das brancas que informam não sentir dor em intensidade alguma.

Essa aparente contradição se explica por um fenômeno documentado na literatura científica: a normalização da dor entre mulheres negras, construída histórica e socialmente. 

De acordo com a ginecologista Glícia Caroline Andrade Ramos, professora do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit), as mulheres negras são, desde a infância, educadas para a minimizar ou conviver com a dor, seja por contextos de menor acesso a cuidado em saúde, seja por estereótipos sociais de ‘resistência’ atribuídos a corpos negros. 

“O resultado é um relato subjetivo de dor menor, que não reflete necessariamente uma experiência fisiológica menor, mas sim uma forma diferente, e muito mais silenciosa, de processar e comunicar o sofrimento. 

Uma menina pode dizer ‘não é tão forte’ porque aprendeu a minimizar a queixa, mas mesmo assim faltar à escola porque a dor, ainda que verbalizada como moderada, é suficiente para impedi-la de continuar a sua rotina, muitas vezes sem o suporte de diagnóstico, tratamento ou acolhimento adequado no momento em que isso ocorre. 

Esse descompasso entre relato de dor e impacto funcional é, inclusive, um dos achados mais importantes da pesquisa, porque expõe que o indicador de ‘dor forte’ pode estar subestimando o problema real entre as meninas negras”, ressalta Glícia.

Para a professora, outra constatação colocada claramente pela pesquisa é a de que os fatores sociais, raciais e ambientais podem potencializar os fatores biológicos que interferem nos níveis das cólicas e complicações menstruais. 

A forma como a situação é identificada e tratada, desde a prevenção diária até o atendimento médico, além das condições de vida da pessoa afetada, pode fazer uma grande diferença em sua saúde e em sua qualidade de vida. 

“Uma menina com acesso a analgesia adequada, ambiente escolar acolhedor e diagnóstico precoce de eventuais condições associadas (como endometriose) tende a ter sua dor mais bem manejada do que uma menina sem esse suporte. 

Fatores como pobreza menstrual, ausência de banheiros adequados nas escolas, estigma em torno do tema e menor acesso a serviços de ginecologia se somam ao componente biológico e amplificam o impacto da dismenorreia na vida dessas meninas. 

Não é exagero dizer que a dor biológica é real, mas o sofrimento e a incapacidade dela decorrente são, em grande parte, socialmente construídos e evitáveis”, disse Glícia. 

O que são as cólicas 

As cólicas menstruais, chamadas de dismenorreia, são dores na região pélvica que ocorrem antes ou durante o período menstrual. Isso acontece porque, durante a menstruação, o útero produz substâncias chamadas prostaglandinas, responsáveis por estimular a contração da musculatura uterina para que o endométrio (camada interna do útero) seja eliminado. 

“Quanto maior a produção das prostaglandinas, mais intensas tendem a ser as contrações e, consequentemente, a dor. Em alguns casos, a dismenorreia é primária, ou seja, não tem uma causa estrutural identificável; em outros, é secundária, associada a condições como endometriose, miomas ou adenomiose, que merecem investigação e acompanhamento médico específico”, explica.

Ainda segundo Glícia, a quantidade de prostaglandina liberada no corpo dita a intensidade das cólicas, que podem ser fortes o suficiente para incapacitar uma mulher ao longo de dias. “Essas substâncias não agem apenas no útero: também podem causar náuseas, diarreia, dor lombar e mal-estar generalizado, o que amplia o impacto sobre a rotina. 

Quando a dismenorreia é secundária a uma condição como a endometriose, a intensidade e a duração da dor tendem a ser ainda maiores, podendo se estender por vários dias e comprometer significativamente a capacidade da mulher de estudar, trabalhar ou realizar atividades cotidianas”, completa a professora, alertando que “dor menstrual incapacitante não é ‘normal’ e nem deve ser naturalizada: é sinal de que algo merece avaliação médica”.

As cólicas e outras complicações menstruais podem se manifestar com mais intensidade em mulheres de perfis mais vulneráveis, incluindo as que tiveram sua primeira menstruação antes dos oito anos de idade (menarca precoce) e as com sedentarismo, tabagismo e determinados perfis nutricionais. 

“Além disso, mulheres com menor acesso a diagnóstico e acompanhamento ginecológico tendem a conviver por mais tempo com dor não tratada, o que agrava a percepção de incapacidade ao longo da vida. 

Isso nos leva a um ponto central: a vulnerabilidade às complicações da cólica menstrual não é puramente biológica, ela também é algo moldada por determinantes sociais de acesso à saúde”, observa Glícia.

A evolução do debate

O debate sobre a pobreza menstrual no Brasil surgiu por volta de 2018, quando o relatório Livre pra Menstruar, do movimento Girl Up, mostrou que 17% das meninas com até 19 anos não tinham acesso à rede geral de distribuição de água e 200 mil alunas estudavam em escolas com banheiros inadequados para o uso. 

Em maio de 2021, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicou o relatório “Pobreza Menstrual no Brasil: Desigualdade e Violações de Direitos”, mostrando que mais de 1 milhão de alunas estudavam em escolas sem papel higiênico nos banheiros.

Com a repercussão do relatório, o Congresso Nacional aprovou a Lei Federal 14.214/2021, que criava o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, prevendo a distribuição gratuita de absorventes nas escolas, entre outras medidas conjuntas com o Sistema Único de Saúde (SUS). 

O artigo específico sobre a distribuição dos absorventes chegou a ser vetado pelo governo, que alegou falta de indicação da fonte de recursos para o custeio. O veto foi derrubado em março de 2022, mas a questão só saiu do papel em 2023, quando o atual Governo Federal editou um decreto e criou o atual Programa Dignidade Menstrual, que utiliza a rede capilarizada do Farmácia Popular.

A ginecologista considera que, “mesmo após avanços legislativos pontuais sobre distribuição gratuita de absorventes, a implementação prática ainda é desigual entre estados e municípios, e o problema continua gerando impacto direto na frequência e no desempenho escolar de meninas em situação de vulnerabilidade”. 

Ela sugere a adoção de políticas públicas estruturadas e contínuas, como a distribuição efetiva e regular de absorventes nas escolas públicas, a capacitação de profissionais de educação e saúde para reconhecer e acolher queixas menstruais sem julgamento; a adoção de protocolos escolares de falta justificada por dismenorreia; e a ampliação do acesso a consultas ginecológicas para diagnóstico precoce de condições como endometriose. 

“Também é fundamental investir em educação menstrual desde a infância, desconstruindo o tabu que ainda silencia meninas e adolescentes sobre o tema”, conclui Glícia.

 

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