Biomédica estuda a evolução dos vírus e os fatores que influenciam sua disseminação
Com formação iniciada na Unit, pesquisadora combina experimentos laboratoriais, sequenciamento genético e bioinformática
Mudanças genéticas permitem que um vírus se adapte, alcance novos territórios e passe a circular entre diferentes grupos populacionais sem que essas transformações sejam visíveis. É nesse campo, em que dados genéticos ajudam a compreender a dinâmica de transmissão e evolução das doenças, que a pesquisadora Mariene Amorim desenvolve seu trabalho.
Formada em Biomedicina pela Universidade Tiradentes (Unit), a biomédica fez da curiosidade despertada pela pesquisa ainda na graduação o ponto de partida para uma carreira voltada à Genética e à Biologia Molecular.
O interesse pela investigação científica surgiu antes mesmo da conclusão do curso. Ainda no segundo semestre, Mariene começou a participar de estágios de Iniciação Científica, experiência que modificou sua percepção sobre a produção de conhecimento.
“Entrar na Iniciação Científica foi o momento em que a pesquisa deixou de ser uma ideia distante nos livros e passou a ser uma prática”, conta. O início dessa trajetória ocorreu no Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe e, posteriormente, ganhou uma nova dimensão durante um intercâmbio nos Estados Unidos.
Foi durante essa experiência no exterior, viabilizada pelo programa Ciências sem Fronteiras, que Mariene teve contato mais próximo com a virologia. Em uma instituição de ensino superior norte-americana, realizou um estágio na área e descobriu um interesse maiopelo estudo dos vírus.
A vivência foi decisiva para definir seus próximos passos profissionais: aprofundar os conhecimentos sobre esses agentes, entender sua evolução e investigar os processos de circulação e transmissão relacionados às doenças que provocam.
Após concluir Biomedicina na Unit, Mariene manteve a rotina de estudos, participou de processos seletivos e ingressou no Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Na sequência, realizou mestrado, doutorado e estágios de pós-doutorado, além de participar de cursos e workshops para ampliar sua formação. Atualmente, conclui o primeiro pós-doutoramento no Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), experiência em que aprofundou conhecimentos relacionados a técnicas avançadas de sequenciamento de genomas virais e análises de bioinformática.
Entre vírus e dados
O trabalho desenvolvido por Mariene combina duas dimensões que se complementam: os procedimentos realizados em laboratório e o processamento computacional das informações obtidas.
Sua rotina inclui atividades como cultivo de células e vírus, entre eles Zika, Oropouche, Chikungunya e SARS-CoV-2, além do sequenciamento de genomas virais e da aplicação de ferramentas de bioinformática para interpretar os dados gerados.
“Um profissional de genética e biologia molecular trabalha na ponte entre o laboratório e a pergunta biológica que ele quer responder. A rotina pode envolver cultura celular, extração de ácidos nucleicos, PCR, citometria de fluxo e procedimentos de biossegurança.
Depois, os dados obtidos por meio do sequenciamento são analisados computacionalmente para compreender como determinado vírus está circulando, sofrendo mudanças e se espalhando entre populações”, detalha.
A investigação desses dados também permite observar de maneira mais ampla o comportamento das doenças. Para Mariene, a Genética e a Biologia Molecular ultrapassam atualmente a compreensão tradicional dos genes. “A área se conecta diretamente à vigilância epidemiológica, à saúde pública e ao conceito de Saúde Única (One Health), que considera a relação entre seres humanos, animais, vetores e meio ambiente”, explica Mariene.
A partir dessa conexão, o que é observado dentro do laboratório passa a ter implicações que alcançam outras áreas. Ao analisar características genéticas e padrões de disseminação de um vírus, os pesquisadores conseguem gerar informações que auxiliam na compreensão de surtos e podem subsidiar decisões de saúde pública.
A vigilância genômica ganhou destaque especialmente depois da pandemia de Covid-19 e hoje representa uma ferramenta estratégica para monitorar tanto doenças já conhecidas quanto possíveis ameaças que possam surgir.
Ciência em construção
Mesmo com o desenvolvimento de novas tecnologias e o aumento das possibilidades de pesquisa, a ciência ainda enfrenta limitações para avançar. Entre os principais obstáculos no Brasil, Mariene destaca as dificuldades relacionadas à infraestrutura e ao financiamento.
Muitos equipamentos, insumos e reagentes apresentam custos elevados e precisam ser importados, fatores que podem aumentar as despesas e afetar o andamento dos estudos.
A capacidade de formar profissionais preparados para interpretar a quantidade crescente de informações produzidas pelo sequenciamento também representa um desafio. “A geração de dados cresceu rapidamente, mas a formação de pessoas especializadas em bioinformática aplicada ainda precisa acompanhar esse movimento.
É necessário aproximar a produção científica das necessidades da saúde pública, fazendo com que os dados genômicos possam ser utilizados em tempo hábil para orientar decisões e respostas a doenças”, elenca.
Ao mesmo tempo em que surgem desafios, a expansão da área abre diferentes possibilidades de carreira. O profissional especializado pode trabalhar com pesquisa acadêmica, vigilância genômica de vírus e doenças emergentes, diagnóstico molecular, setores biotecnológico e farmacêutico, bancos de dados, bioinformática e produção de conhecimento direcionado às políticas públicas de saúde.
“É uma área que só tende a crescer, porque cada vez mais decisões em saúde, desde as vacinas até a resposta a um surto, dependem de dados genéticos e moleculares de qualidade”, afirma.
A decisão de permanecer nesse campo também foi influenciada pelas pessoas que participaram de sua formação. Mariene se lembra dos docentes da Unit, dos pesquisadores com quem teve contato e dos colegas que conheceu durante os estágios de Iniciação Científica.
Em cada uma dessas experiências, procurou absorver o máximo de conhecimento possível. “O contato com diferentes profissionais me ajudou a desenvolver não apenas conhecimentos técnicos, mas também a percepção sobre o que significa ser pesquisadora: manter a curiosidade, buscar respostas e estar disposta a aprender continuamente”, relembra.
A base na Unit
Durante os anos de graduação, Mariene utilizava a biblioteca, participava das aulas práticas nos laboratórios e teve experiências tanto em estágios clínicos quanto em atividades relacionadas à pesquisa. As feiras e os eventos científicos promovidos pela Unit também ajudaram a apresentar a ela diferentes possibilidades de atuação dentro da Biomedicina.
“Eu era sedenta por conhecimento e sempre gostei muito de estudar, mas cheguei a pensar que o sonho de ser uma cientista reconhecida e de contribuir para a ciência nacional estava distante demais para mim”, relata.
Essa visão começou a mudar a partir do incentivo encontrado durante sua formação. Professores que trabalhavam com artigos científicos, pesquisadores dispostos a compartilhar experiências e colegas que estiveram ao seu lado ao longo da graduação contribuíram para que Mariene percebesse que também poderia construir uma carreira científica.
O intercâmbio realizado posteriormente ampliou ainda mais essa percepção ao apresentar novas possibilidades de pesquisa e atuação.
A rede formada durante esse período continua tendo significado para a pesquisadora. Mariene valoriza as amizades construídas na Unit e reconhece a importância delas tanto para sua formação acadêmica quanto para sua vida fora da universidade. “É por isso que hoje me dedico tanto a apoiar e formar novos pesquisadores, para que ninguém precise achar esse sonho distante demais.
Quando penso na trajetória que percorri até aqui, entendo que a ciência se constrói assim: não sozinha, mas numa rede de apoio que vai passando adiante a confiança que um dia depositaram em você”, pontua.
A relação com sua origem também atravessa essa trajetória. Ter construído uma carreira em instituições como Unicamp e USP depois de iniciar sua formação no Nordeste representa, para Mariene, a demonstração de que o local onde uma pessoa nasce não precisa estabelecer até onde ela pode chegar na ciência.
Ao mesmo tempo, ela reconhece o significado de ocupar um espaço que ainda conta com pouca presença de pesquisadores nordestinos nos principais centros científicos do país.
“Carrego isso também como responsabilidade, pois sei o quanto pesa vir de uma região historicamente menos representada nos grandes espaços da ciência brasileira, e por isso sinto que parte do meu papel hoje é mostrar que esse caminho é real para quem, no Nordeste, ainda duvida se pode segui-lo”, afirma.
Próximos caminhos
Os próximos passos da carreira permanecem relacionados aos vírus e às doenças tropicais, mas passam a incorporar uma questão que ganha cada vez mais espaço nas discussões sobre saúde pública: as mudanças climáticas.
“A alteração das condições ambientais pode favorecer a ocupação de novos territórios por vetores e patógenos, criando desafios que exigirão respostas cada vez mais rápidas da ciência”, prevê.
Mariene também pretende fazer com que os resultados de suas pesquisas ultrapassem os limites da universidade. A intenção é gerar conhecimento que possa ser aplicado de maneira efetiva às decisões relacionadas à saúde no Brasil, aproximando a produção científica dos problemas enfrentados pela população.
Paralelamente, busca ampliar sua atuação em áreas como genômica viral e vigilância genômico-epidemiológica, além de encontrar oportunidades e recursos que contribuam para uma ciência brasileira mais autônoma.
Enquanto conclui o pós-doutoramento na Faculdade de Medicina da USP, Mariene segue orientada pelo mesmo princípio que começou a desenvolver nos primeiros anos da graduação: fazer perguntas, manter a curiosidade e buscar respostas.
“O cenário está mudando rápido, com vetores e patógenos ocupando novos territórios, e sinto que essa é uma das fronteiras mais urgentes da nossa área nos próximos anos”, finaliza.