O caso do soldado Zezinho de Filó :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
O delegado, sargento Tonho de Ananias, neto do velho Benjamim de Florinda, falecido há coisa de ano e meio, coçou o cavanhaque pintado de preto, tintazinha ruim, que dava para escorrer, quando pintado de novo. Caso danado para resolver. Nada seria se fosse um qualquer. Mas, logo o soldado Zezinho de Filó, no vulgo, e José Batista Limoeiro, no documento e na pia batismal. Zezinho acabou de assentar praça e já vinha com um embeleco daquele. A autoridade teria que tomar as devidas providências, senão o povo de língua de serpente haveria de sair por aí, dizendo que o delegado estaria contemporizando, tirando o corpo de banda só porque o caso era com um soldado. Cada um pagasse pelos erros cometidos.
A manhã ia alta, beirando as 11 horas. “Soldado Rufino, meus coturnos”! Rufino, mais amarelo que a parte amarela da bandeira nacional, enxofrado, correu ao canto da sala e levou os coturnos. O sargento calçou-os, a muito custo. “Peste de coturno apertado”, grunhiu o sargento-delegado, batendo o pé direito no chão, como que para o pé fixar-se melhor no calçado. Calçou o outro pé. Colocou o coldre. Aprumou-se. “Rufino, eu vou sair em diligência. Vou sozinho. Tome conta do quartel. Se esse bêbado começar a gritar dê-lhe um banho com dois baldes de água”.
Um desatino, o que fez o soldado Zezinho de Filó. Ele era dali mesmo, o único soldado dentre os três do destacamento policial que era filho dali, do povoado Cachimbinho. Filho de Aristides de Joaninha, que por sua vez era neto de Belizário Rabo de Raposa, afamado carpinteiro das redondezas. Gente simples, mas honrada, pelo que se comentava na cidade e arredores. Porém, Zezinho acabou de fazer um desatino, um ato destrambelhado. Soldado ou não, teria que se ajustar à lei.
Dobrando a esquina da loja de tecidos de João Neto, eis que o sargento-delegado deu de cara com Afonso da Embira, tio de Maria Flor. “Então, seu delegado, como vai ficar esse caso do soldado Zezinho, hein”? Tonho de Ananias, do alto de sua autoridade, coifou o cavanhaque pintado de preto e respondeu: “Comigo, seu Afonso, tudo se resolve nos conformes. Lei é lei. E a lei foi feita para todos, embora os grandes deste país nem sempre pensam assim. O senhor vai ver que comigo é tudo no contado”. Despediram-se.
Adiante, o sargento-delegado encontrou Dona Engrácia e Dona Esmeralda, irmãs e igrejeiras de línguas soltas como pipas ao vento. “Seu delegado, bom dia. O senhor está com ar preocupado. É por causa do caso do soldado Zezinho? Na cidade, não se fala em outra coisa. Meu Deus! Um horror! O senhor tome lá suas providências dentro da lei. Até o padre Ferreira deve falar com o senhor. Se tudo não se resolver a contento, o padre vai ao governador. E o senhor pode perder a função. Cuidado! Maria Flor pode não ter juízo. E não tem mesmo. Quem já viu um desplante desse? Mas, o caso não pode passar em brancas nuvens, não é mesmo”? Dona Engrácia parecia carregar em si a voz da cidade inteira.
Aproximando-se o meio-dia, o sol fazia o suor descer em bicas pelo rosto do delegado. Era a sua primeira função como delegado comissionado. Antes, era instrutor de tropa, no Quartel Geral. Dez anos fazendo os recrutas desmancharem os buchos e criarem músculos. O deputado Chico Queiroz, tio de sua esposa, Maria Rosa, arranjara-lhe aquela função. Teve que comprar livros, tomar umas lições de colegas experientes na função de delegado e arriscar-se em fazer inquéritos. Até o promotor de justiça da Comarca, Dr. Fernandes de Lira, que já o conhecia, tornou-se de muita valia, ajudando-o em certas dificuldades.
Tonho de Ananias entrou no Bar Canário de Josivaldo Tamborete e pediu um copo com água. Água gelada. Bebeu. Josivaldo puxou conversa: “Então, meu delegado, como vai ser o desfecho do caso de Zezinho de Filó”?
Bem. Vamos ao caso de Zezinho de Filó, soldado em início de carreira. Maria Flor, filha de Domingos do finado Julião Catapora, era noiva de Ernesto Flores de Margarida de Sinésio, um promissor serventuário do cartório de Jeremias Assunção. Casamento a ser marcado mais dia, menos dia. As duas famílias já falavam nos preparativos. Ocorre que Zezinho de Filó e Maria Flor foram colegas na escola da professora Miralda de João Roncoio, no primário. Muito próximos. A vida os separou. E eis que, numa só conversa, sábado passado, Zezinho de Filó carregou Maria Flor, que deixou para trás o serventuário promissor. Um escândalo. Maria Flor tinha 17 anos. Rapto. Sedução, conforme a lei então vigente.
Diante do silêncio do delegado, Josivaldo Tamborete exclamou: “Também, o noivo deu bobeira. Quem guarda com fome, o rato come”.