Aracaju (SE), 30 de julho de 2026
POR: Marcio Rocha
Fonte: Marcio Rocha
Em: 30/07/2026 às 16:27
Pub.: 30 de julho de 2026
Atualizada: 30/07/2026 às 18h13

Emília enfrenta a roleta de Dostoiévski :: Por Marcio Rocha

Marcio Rocha*

Marcio Rocha - Foto: Arquivo Pessoal

A prefeitura de Aracaju fez o que muitos governos ainda não tiveram coragem de fazer: reconheceu que a publicidade das bets não é apenas uma estratégia comercial, mas um problema de saúde pública. Ao proibir a veiculação de propagandas de casas de apostas e jogos de azar nos espaços públicos e mobiliário público do município, a prefeita Emília Corrêa envia uma mensagem importante. O Estado não pode utilizar sua estrutura para incentivar uma atividade que, embora legalizada, produz efeitos sociais cada vez mais preocupantes. É uma decisão que merece elogio porque coloca a proteção das pessoas acima do interesse econômico de um mercado bilionário.

Há algumas semanas, neste mesmo espaço, recorri a Dostoiévski para explicar por que milhões de brasileiros continuam apostando mesmo quando sabem que as chances estão contra eles. Alexei Ivanovitch, protagonista de “O Jogador”, acreditava que a próxima rodada resolveria sua vida. A tragédia daquele personagem deixou de ser apenas literatura. Hoje, ela cabe no bolso de qualquer pessoa que tenha um celular conectado à internet.

A diferença é que Alexei precisava procurar o cassino. O brasileiro de 2026 não precisa procurar nada. O cassino procura por ele. Está nas transmissões esportivas, nas redes sociais, nos influenciadores digitais, nas camisas dos clubes, nos aplicativos e em campanhas publicitárias cuidadosamente construídas para associar apostas a sucesso, felicidade e prosperidade financeira. Nunca foi tão fácil jogar. Nunca foi tão difícil escapar dos estímulos para continuar jogando.

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Os números impressionam. O Banco Central estima que os brasileiros movimentem até R$ 30 bilhões por mês em plataformas de apostas, o equivalente a cerca de R$ 360 bilhões por ano. Se Sergipe acompanhar proporcionalmente esse comportamento nacional, algo próximo de R$ 4 bilhões poderá ser movimentado em apostas ao longo de 2026. Ainda que parte desse dinheiro retorne aos apostadores na forma de prêmios, trata-se de um fluxo financeiro gigantesco que deixa de impulsionar outros segmentos da economia e ajuda a explicar a preocupação crescente do comércio e dos especialistas.

Não por acaso, a Fecomércio de Sergipe já havia alertado para os impactos das apostas sobre o consumo das famílias. Dinheiro que poderia circular em supermercados, farmácias, restaurantes, pequenas empresas e serviços acaba direcionado para plataformas cuja lógica econômica depende, inevitavelmente, de que a maioria dos apostadores perca mais do que ganha. Essa dinâmica reduz o efeito multiplicador da renda, enfraquece a economia local e agrava o endividamento das famílias. Se na época do estudo, o presidente Marcos Andrade se assustou quando apresentei o cálculo de R$ 846 milhões para 2025. Ele quase cai da cadeira nesta semana, quando falei que a projeção para este ano é de R$ 4 bilhões. Esse dinheiro deixa de circular na economia e gerar empregos para as pessoas. O que é, de fato, assustador.  

Mas talvez o aspecto mais perverso desse mercado seja a publicidade. As campanhas vendem emoção, liberdade financeira e a possibilidade de transformar poucos reais em grandes fortunas. Ao final, aparece uma frase obrigatória: "Aposta não é investimento". A advertência está correta. O problema é que ela tenta neutralizar, em poucos segundos, uma narrativa construída durante toda a propaganda. É como anunciar um atalho para a riqueza e, no rodapé, lembrar que ele provavelmente não existe.

Não se combate pobreza oferecendo às pessoas uma ilusão estatística. Quem enfrenta dificuldades financeiras não precisa de um algoritmo prometendo uma virada de vida; precisa de emprego, renda, qualificação profissional, crédito produtivo e oportunidades concretas. Quando a esperança passa a ser comercializada como produto, os mais vulneráveis costumam pagar a conta.

É justamente entre as famílias de menor renda que os efeitos aparecem com mais força. Crescem os relatos de endividamento, conflitos familiares, ansiedade, compulsão, depressão e comprometimento da renda destinada às despesas essenciais. O problema deixa de ser apenas econômico e passa a ocupar espaço nas políticas de saúde mental, assistência social e proteção às famílias. Não é exagero afirmar que as bets já se transformaram em um desafio de saúde pública.

Por isso, a decisão da Prefeitura de Aracaju possui um valor que vai além da comunicação institucional. Ela reconhece que governos também têm responsabilidade sobre os ambientes que ajudam a construir. Emília acertou mais uma vez. Se há evidências de que a exposição contínua à publicidade estimula o comportamento de risco, reduzir essa exposição é uma medida de prevenção, não de censura. O poder público não deve atuar como vitrine de um mercado cujos custos sociais acabam recaindo sobre toda a sociedade.

Também é hora de cobrar mais responsabilidade do Governo Federal. Regulamentar o setor foi importante para retirar a atividade da informalidade e estabelecer regras. Mas regulamentar não significa normalizar nem estimular. A velocidade com que as campanhas publicitárias se espalharam foi muito maior do que a capacidade do Estado de desenvolver políticas de prevenção, educação financeira e tratamento da dependência em jogos. Essa conta, cedo ou tarde, chega ao Sistema Único de Saúde, à assistência social e às famílias brasileiras.

As próprias empresas do setor também não podem se esconder atrás do discurso do "jogo responsável". Responsabilidade não se resume a incluir um aviso obrigatório ao final da propaganda. Ela exige coerência entre a mensagem e a prática. Não faz sentido vender a fantasia do enriquecimento rápido e, ao mesmo tempo, afirmar que apostas não representam uma forma de investimento. Essa contradição está no coração de um modelo de negócios que prospera justamente porque milhões de pessoas acreditam que serão exceção à regra.

Dostoiévski escreveu sobre um homem que perdeu o controle diante da roleta. O Brasil transformou essa tragédia humana em uma indústria de centenas de bilhões de reais. Diante desse cenário, iniciativas como a adotada pela Prefeitura de Aracaju merecem ser vistas como políticas de proteção à saúde mental, financeira e psicológica da população. Talvez não acabem com o problema. Mas lembram uma verdade que parece esquecida: a função do Estado não é alimentar ilusões. É proteger as pessoas delas.

*Jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva e MBA em Business Intelligence com experiência de 26 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa.

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