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Aracaju (SE), 04 de novembro de 2026
POR: Fausto Leite
Fonte: Fausto Leite Portal de Notícias
Em: 04/11/2026 às 06:52
Pub.: 04 de novembro de 2026

Cemitério ecológico: Emília escolhe o diálogo e deixa o palanque para quem prefere a confusão :: Por Fausto Leite

Cemitério ecológico: Emília escolhe o diálogo e deixa o palanque para quem prefere a confusão - Imagem: Reprodução | Fausto Leite Portal de Notícias

Aracaju conseguiu transformar até a última despedida em disputa política. Enquanto famílias enfrentam a angústia de encontrar uma vaga para sepultar seus mortos, alguns já chegaram ao debate com o discurso pronto, a indignação ensaiada e o microfone carregado. Faltou apenas lembrar do principal: a cidade precisa de um novo cemitério. A proposta de um equipamento vertical ecológico não nasceu de um capricho da prefeita Emília Corrêa, mas de uma necessidade antiga, discutida judicialmente desde uma ação do Ministério Público em 2006. A morte não escolhe partido, bairro ou calendário eleitoral. E família de luto precisa de acolhimento, não de arquibancada.

Emília fez o que se espera de quem governa: enfrentou o assunto, ouviu as críticas e corrigiu a rota. Reconheceu que faltou diálogo inicial com os moradores do Santo Antônio e, em vez de se esconder atrás de pareceres, reuniu a Procuradoria, a Emurb e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Mais importante: já procurou o Ministério Público de Sergipe e solicitou uma audiência pública para ouvir a população. Na política, admitir uma falha costuma ser tratado como escândalo. Talvez porque ainda haja muita gente que prefere morrer abraçada ao próprio erro a reconhecer que a comunidade tem voz.

E não será apresentada uma única saída embrulhada como decisão definitiva. Cinco regiões estão sob análise: Japãozinho, Ponto Novo, Areia Branca, Santo Antônio e Santa Maria. Os estudos e as propostas deverão ser expostos e debatidos com os moradores. Isso é governar com portas abertas, não empurrar um projeto goela abaixo. Quem mora perto de uma possível área tem o direito de perguntar sobre trânsito, drenagem, lençol freático, controle de resíduos, impactos sanitários e custos. E a Prefeitura tem o dever de responder com laudos, não com frases bonitas. O cemitério pode ser ecológico; o debate também precisa deixar de produzir tanta fumaça.

Há uma ironia que não cabe esconder debaixo da terra: o problema atravessou administrações, resistiu a promessas e agora virou urgência de quem descobriu vocação para fiscalizar apenas quando surgiu uma proposta concreta. Fiscalização séria é indispensável. Terror ambiental sem estudo é só teatro com figurino de preocupação pública. Ninguém precisa concordar previamente com a localização, muito menos aceitar risco sem comprovação. Mas transformar a dor das famílias em munição política não abre uma sepultura sequer. Cabe também aos auxiliares da prefeita assumir seu papel: técnicos devem explicar os estudos, gestores devem esclarecer os custos e a comunicação deve aparecer antes da crise, não depois do velório.

O caminho para resolver essa questão está aberto. A iniciativa junto ao Ministério Público, a apresentação de alternativas e a escuta das comunidades permitem construir uma solução responsável, desde que acompanhadas de transparência e licenciamento rigoroso. Emília demonstrou disposição para buscar esse entendimento sem abandonar a obrigação de ampliar as vagas. Aracaju pode, sim, sair desse impasse com uma decisão melhor, tecnicamente sustentada e socialmente respeitosa. Que venham as propostas, as perguntas e as respostas. O que não pode continuar vivo é a velha política de transformar qualquer problema em palanque. Porque nossos mortos merecem descanso, nossas famílias merecem dignidade e os vivos, por favor, merecem um pouco de juízo.

Confira coluna completa em Fausto Leite

 

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